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Qualidade de Vida e Diabetes
O aumento da esperança de vida, conseguido através do desenvolvimento em geral e do progresso das ciências da saúde, em particular, deu origem a uma maior prevalência de doenças crónicas. A diabetes é uma destas doenças sem cura conhecida e uma das causas mais importantes de morbilidade e de mortalidade. Complicações graves, extremas, incluem problemas cardiovasculares, hipertensão, insuficiência renal, cegueira e amputação.

Sendo a diabetes uma doença crónica prolongada que causa incapacidade e mortes precoces, ameaça, no mínimo, 10 milhões de cidadãos europeus. Nos EUA, a diabetes e as suas complicações são responsáveis por cerca de 14% dos gastos totais em saúde, contribuindo a diabetes tipo 1 com 5-10% da população diabética e sendo responsável por cerca de 30% do total dos custos atribuídos À diabetes. Estima-se em 16 milhões o número de pessoas, nesse país, que são portadoras da diabetes. Em todo o mundo, em 1985 estavam estimados 30 milhões de diabéticos. Este número subiu para 135 milhões em dez anos e espera-se que atinja os 300 milhäes em 2025.

Em Portugal, o Inquérito Nacional de Saúde forneceu-nos uma aproximação À prevalência da diabetes em Portugal. Numa amostra da população portuguesa com cerca de 50 mil pessoas, este inquérito estima em menos de 5% o número de diabéticos, cerca de 500 mil pessoas. Este número esta aliás de acordo com outras estimativas da ordem dos 2-4% na população em geral. Ainda segundo o Inquérito, mais de metade (63,0%) considera o seu estado de saúde mau ou muito mau, 32% como razoável e apenas 5% o considera como bom ou muito bom (INS9596).
Mais recentemente, através da rede "Médicos-Sentinela" foi possível obter estimativas de incidência da diabetes em Portugal da ordem dos 2,5 por mil habitantes, valor que tem vindo a aumentar em ambos os sexos, até ao grupo etário entre os 65-74 anos, com valores mais elevados para o sexo feminino. As taxas de incidência da diabetes são superiores às dos AVCs ou dos enfartes agudos do miocárdio.

A avaliação de resultados envolve medições biomédicas de controlo de sintomas (como as medições do controlo da glicémia através da glicémia plasmática em jejum, por exemplo), taxas de hospitalização de doentes com complicações agudas (como a hiperglicemia ou a hipoglicemia), ou incidência de complicações crónicas (como a insuficiência renal crónica, a amputação de membro, a retinopatia, a cegueira ou a insuficiência vascular). Estes problemas têm inevitavelmente um impacto substancial na qualidade de vida.

Colocando o doente no centro dos cuidados, as medidas de qualidade de vida incluem o apoio social (um determinante importante na autogestão efectiva, para além de ser uma medida de resultado), a interrupção forçada de trabalho, os défices neuropsicológicos (por exemplo, durante a diminuição da glicose, as deficiências transitórias podem interferir na velocidade em lembrar-se de coisas, na fluência verbal, ou no ritmo de tomadas de decisão), o bem-estar, a depressão e o stress psicológico, assim como a satisfação do indivíduo com o tratamento e a percepção do controlo da diabetes.

As abordagens normais de medição pressupõem a utilização de instrumentos genéricos de medição e de instrumentos específicos. No campo das medições genéricas de saúde há referência à medição das preferÊncias dos indivíduos através das utilidades que estes associam aos estados de saúde. Isto leva-nos ao cálculo dos denominados anos de vida ajustados à qualidade (QALYs), um sistema de numeração que representa o valor relativo ou o desejo de estar em diferentes estados de saúde. Um QALY é calculado pesando o número de anos vividos numa certa condição clínica por um valor de utilidade (entre O e 1) associado àquela condição.

Ainda em termos de uma avaliação genérica do impacto da doença no indivíduo podemos utilizar uma abordagem baseada nas percepções em relação à sua qualidade de vida. Aqui, o instrumento de medição mais vulgarmente utilizado é o denominado SF-36 adaptado culturalmente por nós para português e validado para a realidade portuguesa. É constituído por 36 perguntas que, em conjunto, permitem a medição de oito domínios de saúde formando um perfil da qualidade de vida experimentada pelo indivíduo. São eles as funções física, mental e social, as funções dos desempenhos físico e emocional, a dor, a vitalidade e a saúde em geral.

Por fim, existem também instrumentos específicos de diabetes, como é o caso do Perfil de Saúde da Diabetes (ou Diabetes Health Profile). Este instrumento de medição foi desenhado para avaliar a disfunção psicossocial e comportamental em indivíduos com diabetes. É constituído por duas versões, a DHP-1 para insulino-dependentes e a DHP-2 para não insulino-dependentes), cada uma delas com três dimensões:

 

DHP-1
Stress psicológico (14 itens)
Barreiras nas actividades (1 3 itens)
Desinibição na alimentaçao (5 itens)

DHP
Preocupações (1 1 itens)
Não contenção na alimentação (5 itens)
Depressão relacionada com a diabetes (4 itens)

 

Trata-se de um instrumento de medição de auto-preenchimento com uma duração estimada em 15 a 25 minutos,. As versões original inglesa e as traduções já existentes demonstram altas fiabilidade e validade e um grande poder de resposta ou sensibilidade.
Por fim, e para complementar o conceito de qualidade de vida do diabético, há também que recolher informação relativamente à satisfação com o tratamento, sobre o impacto do tratamento, a percepção sobre possíveis consequências da diabetes no futuro e percepções de natureza social.

Dois anos após a 42ª assembleia da OMS e da Declaração de St. Vincent, em 1989, Portugal adere ao programa internacional DiabCare que tem como objectivo a melhoria dos cuidados prestados ao diabético de modo a reduzir as nefastas complicações desta doença. Em 1995 o Programa de Controlo da Diabetes Mellitus apresentou uma estratégia de actuação mais directamente ligada às ARSS.

Ora, apesar deste programa ser considerado modelo para as demais doenças crónicas, não faz ainda qualquer referência à medição da percepção da qualidade de vida: há indicadores para o doente, há indicadores para o internado, há indicadores para o trabalhador, mas o indivíduo é, de novo, esquecido.
Porque a gestão de qualquer doença crónica requer a participação dos doentes, é necessário monitorizar o seu impacto, principalmente nas funções psicossociais e de comportamento. Assim é necessário juntar todos os esforços no sentido de colaborar na determinação dos ganhos em saúde obtidos com os tratamentos e sob a perspectiva do cidadão

 

Dr. Pedro Lopes Ferreira