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Existem hoje no Mundo cerca de 140 milhões de diabéticos
diagnosticados e estima-se que nas próximas duas décadas
esse número duplique. diabetes é uma das principais
causas, senão principal, de doença cardiovascular,
além das graves complicações micro vasculares
que provoca, podendo conduzir à cegueira e à insuficiência
renal.
O aumento epidémico desta doença e as suas sérias
consequências permitem-nos compreender por que razão,
em todo o Mundo, políticos responsáveis, tanto na
área da Saúde como em outras áreas sensíveis
(Economia, Educação, Assuntos Sociais), se vêm
debruçando sobre o problema com preocupação
cada vez maior. Não é por acaso que personalidades
do peso do Presidente Clinton mencionaram já, por várias
vezes, sua inquietação perante gravidade do problema
da diabetes. Todos sabem que além dos aspectos de Saúde
Pública, os diabéticos constituirão em breve,
pelo seu número, um grupo de pressão extremamente
poderoso em termos políticos.
Em Portugal sabemos que o número de diabéticos ronda
o meio milhão, isto é, 5% da população
Portuguesa. São mais numerosos do que população
de muitos distritos do Continente e do que de qualquer das regiões
autónomas. Não esqueçamos, além disso,
que os problemas dos diabéticos afectam também, profundamente,
as suas famílias e que um quinto das famílias portuguesas
tem um membro diabético.
Trata-se pois de uma situação que ultrapassa muito
o âmbito estrito da Saúde, para se converter num problema
nacional, até por que implica medidas de prevenção
estreitamente relacionadas com phpectos educativos, de estilo de
vida, de orientação dos consumos, etc., que excedem
muito as possibilidades de intervenção médica
ou mesmo dos agentes de saúde, num sentido mais lato.
Mas, mesmo restringindo-nos apenas aos aspectos de saúde,
Diabetes deve constituir uma das maiores preocupações
de qualquer governo. Está hoje cientificamente comprovado,
que única maneira de evitar as terríveis consequências
da doença, consiste em atingir um grau rigoroso de controlo
metabólico e tensional. Esse controlo não é
fácil de conseguir e sobretudo de manter ano após
ano, quer para o diabético, quer para equipa de saúde.
Sabe-se que há uma tendência uma progressiva deterioração,
que tem de ser permanentemente combatida através de adaptações
e modificações terapêuticas.
A esperança de vida dos diabéticos tem vindo, felizmente,
aumentar com razoável rapidez, e diabetes tipo 2, da maturidade,
surge cada vez numa idade mais precoce. Estes dois factos levam
que as pessoas vivam cada vez mais anos com sua diabetes e, como
ficou dito, o controlo tende tornar-se mais difícil com maior
duração da doença. Para conseguir atingi-lo
é necessário facilitar todos os diabéticos
uma formação adequada e intensiva, que lhes permita,
cada momento, saber quais as medidas que devem tomar para conciliar
uma vida normal e agradável com uma perfeita compensação.
importância das modificações do estilo de vida
é essencial, sendo o tema proposto pela IDF para este Dia
Mundial da Diabetes.
Também com formação do pessoal de saúde
o Estado tem de se preocupar. diabetes é uma doença
complexa, que sob uma aparência de simplicidade, é
muito difícil de tratar correctamente, requerendo uma excelente
formação e uma permanente actualização,
difíceis de atingir por técnicos que não estejam
predominantemente vocacionados para diabetes. Se o Estado quiser
de facto promover o bom controlo dos diabéticos, evitando
num futuro próximo uma epidemia de complicações
vasculares de proporções catastróficas, terá
que investir convictamente na formação dos agentes
de saúde que cuidam dos diabéticos.
Pensamos que existem no nosso País especialistas em número
suficiente e altamente treinados, para poderem ministrar essa formação.
Estamos convictos que todos esses especialistas, conscientes da
gravidade do problema, estão prontos organizar-se para transmitirem
os seus conhecimentos e sua experiência aos técnicos
de saúde que fazem o acompanhamento dos diabéticos
no dia dia, mas terá que ser o Estado apoiar essas acções
de formação.
Sendo diabetes uma doença que atinge todos os aparelhos e
sistemas do organismo, e portanto multidiciplinar, e que necessita
também da intensa colaboração de técnicos
para-médicos (enfermeiros, dietistas, quiropodistas, psicólogos,
assistentes sociais, etc.) é essencial que o Estado promova
uma maior coordenação e interacção entre
os diferentes níveis de cuidados de Saúde. Tem-se
verificado nas últimas décadas um progressivo divórcio
entre os cuidados primários e os cuidados diferenciados de
Saúde, que tem sido trágico para o acompanhamento
dos doentes crónicos e nomeadamente para os diabéticos.
Estes doentes necessitam permanentemente de um bom seguimento nível
local, pelos seus médicos de família e paralelamente
de um acesso rápido e fácil aos cuidados especializados,
que qualquer momento podem ser necessários. Isto só
se consegue implementando uma coordenação e colaboração
muito mais estreitas entre os cuidados primários e os cuidados
diferenciados, aquilo que os anglosaxónicos chamam cuidados
partilhados (shared care).
Outro aspecto em que o papel do Estado é vital é na
colheita de dados epidemiológicos que permitam fazer uma
avaliação correcta da situação, sem
qual não é possível planear medidas de combate
à verdadeira expansão epidémica da diabetes
e das suas complicações, que presentemente se verifica.
introdução do Guia do Diabético poderá,
neste aspecto, trazer grandes avanços e é essencial
motivar todo o pessoal de saúde para o seu correcto preenchimento.
Poderá partir dele criar-se um embrião de um registo
nacional de diabéticos.
Finalmente, um problema que, cada vez mais, se tem vindo pôr,
sobretudo nos Países mais avançados é o do
rastreio da diabetes tipo 2. Quando se faz o diagnóstico
desta situação já é frequente haver
complicações micro ou macrovasculares em estadios
iniciais. Sabe-se hoje que os riscos vasculares provocados pelo
aumento da glicémia ou da tensão arterial crescem
num contínuo, partir de valores que nem sequer são
ainda considerados patológicos. Não existe um limiar,
partir do qual se inicie o aumento de risco e portanto, quanto mais
baixas forem glicémia ou tensão arterial, mais protegido
está o organismo de problemas vasculares.
Os cientistas que se debruçam sobre esta questão começam
pois interrogar-se se prevenção destes problemas vasculares
não deverá começar ser feita partir de níveis
glicémicos de simples intolerância à glucose
e de níveis tensionais no limiar da normalidade (borderline).
Para poder fazê-lo seria necessário fazer o rastreio
destas situações assintomáticas e iriamos certamente
identificar também um grande número de diabéticos,
até aí não diagnosticados. É aliás
percepção do risco das situações bordeline,
que tem levado à repetida revisão dos critérios
de diagnóstico da diabetes, que têm vindo tornar-se
cada vez mais rigorosos (vide critérios de diagnóstico
IDF/OMS de 1999).
O problema de qualquer rastreio, é de que uma vez feito o
diagnóstico de novas situações, é obrigatória
criação das correspondentes estruturas de atendimento.
Só o Estado pode portanto decidir se se justifica fazer programas
de rastreio e se existem os recursos necessários para depois
atender os casos diagnosticados.
Vemos portanto que diabetes, pela amplitude do número de
pessoas que atinge e pelas gravíssimas complicações
que pode provocar, é um problema de que o Estado não
pode alhear-se, sob risco de vir ter que resolver, breve trecho,
problemas muito mais graves.
João Nunes Corrêa
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