|
Considera a SPD que os estudos que não têm demonstrado evidência clara
do benefício da autovigilância glicémica nalgumas situações de Diabetes
tipo 2, nomeadamente nas situações de terapêutica oral ou nas situações
sem terapêutica, não são indicativos de que a autovigilância glicémica
seja dispensável nestas populações. Com efeito, e na nossa perspectiva,
estudos relacionando autovigilância com controlo da diabetes ou
complicações sofrem de algumas limitações que passamos a referir:
Independentemente das limitações e inconsistências metodológicas dos
próprios estudos e que abundam, existem considerações de ordem clínica
que gostaríamos de realçar:
Em 1º lugar, a
autovigilância glicémica é um meio auxiliar de vigilância que por si só
não tem influência directa no controlo da diabetes ou das suas
complicações. É um meio intermediário, facilitador do autocontrolo do
doente e, portanto, um poderoso auxiliar na educação terapêutica e é um
instrumento fundamental na prática clínica para orientar a atitude
terapêutica medicamentosa pelo médico assistente.
São a
terapêutica medicamentosa e o estilo de vida que influem directamente
no controlo metabólico e não a autovigilância glicémica, por si.
Assim, a existir uma ausência de resultados, esta dever-se-á a uma
menor eficácia na utilização do meio auxiliar (autovigilância
glicémica) pelos intervenientes (médico ou doente) e não a uma
insuficiência do método em si.
Em 2º lugar, na população
de diabéticos tipo 2 tratados com ADO o risco de hipoglicemia
iatrogénica é significativo e é causa de morbilidade acrescida, sendo
que a auto-vigilância glicémica é imprescindível como método preventivo
desta grave complicação da terapêutica.
Em 3º lugar, na
população com diabetes tipo 2 não medicada com ADO, encontram-se
situações intermediárias em que a intervenção terapêutica pode vir a
ser necessária. Aqui, a autovigilância glicémica funciona como factor
de autocontrolo importante, educativo e preventivo. A frequência com
que se exerce esta autovigilância, nestes casos, é habitualmente baixa
e, até intermitente ou periódica. A autovigilância glicémica é uma
manobra para a maioria das pessoas incómoda e, mesmo, dolorosa pelo que
não são habituais consumos excessivos nesta população.
Em termos mais genéricos, pode-se mesmo afirmar que a autovigilância
glicémica irá tendencialmente aumentar na população de pessoas com
diabetes tipo 2 ou mesmo numa fase de pré-diabetes. Com efeito, a
principal causa de morbilidade, mortalidade e custos para o SNS na
Diabetes tipo 2 relaciona-se com a Doença cardiovascular.
Estudos
observacionais vários (Decode, Paris Prospective Study, Hoorn etc...)
têm demonstrado uma associação significativa entre a doença
cardiovascular e a glicemia pós-prandial. Esta associação é, inclusive,
mais evidente do que com os níveis de hemoglobina glicada. Embora não
exista ainda evidência de que uma intervenção terapêutica sobre as
glicemias pós-prandiais venham a reduzir a incidência de doença
cardiovascular na população referida (existem estudos prospectivos em
curso) é já advogada por diversas entidade científicas (entre elas, a
própria SPD) a autovigilância glicémica pós-prandial na Diabetes tipo2
nas fases iniciais do seu desenvolvimento.
A SPD concorda,
na generalidade, com as recentes «Guidelines» da IDF e as
recomendações quanto à auto-vigilância glicémica ( Standard-Care)
publicadas recentemente. (Global Guideline for type 2 Diabetes
pp.32-34).
A SPD está na disposição de participar num grupo
de trabalho sobre autovigilância com o intuito de discutir e divulgar
“Recomendações para a Autovigilância Glicémica para a Diabetes” pois é
nossa forte convicção que a utilidade e eficácia da autovigilância
glicémica reside na forma como esta é utilizada e prescrita e não no
método em si.
Para melhor conhecimento da realidade
portuguesa, seria da máxima utilidade a partir de dados da DGS e IGIF
realizar um cálculo quanto ao consumo de tiras de glicemias /ano per
capita de diabéticos conhecidos.
Assim é parecer da SPD que:
-
Nas pessoas com diabetes tipo2 deve ser mantido o tipo de comparticipação actual.
-
Nos
casos especificados de Diabéticos tipo 1 e tipo 2 insulino-tratados,
tendo em conta os benefícios comprovados da auto-vigilância glicémica
nestas pessoas, deve ser facilitada ainda mais a comparticipação em
certos grupos como crianças e jovens, grávidas e idosos (com pensões
mínimas).
-
As tiras de cetonémia devem ser comparticipadas de forma idêntica às de glicémia.
-
A
eventual retirada da comparticipação nas tiras de glicosúria não deve
implicar, nesta fase, a retirada da comparticipação das tiras de
cetonúria.
|