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Introdução
A necessidade de encontrar critérios uniformes para o diagnóstico
e classificação da Diabetes Mellitus, deu origem,
na década de 80, diversas publicações de carácter
normativo da Associação Americana de Diabetes (A.D.A.)
e da Organização Mundial de Saúde (O.M.S.).
Os avanços no conhecimento etiológico da doença,
veio tornar imperioso uma modificação da classificação
com base nos referidos conhecimentos. Por outro lado, relação
da Diabetes Mellitus com as suas complicações tardias,
nomeadamente doença cardiovascular, implicava uma reavaliação
dos níveis de glicemia em jejum e qualquer hora para o seu
diagnóstico, bem como correspondência adequada entre
os referidos valores e os encontrados após realização
de uma prova de tolerância à glicose oral (P.T.G.O.).
Com finalidade de rever os critérios de diagnóstico
e classificação da Diabetes Mellitus foi constituído
um grupo de trabalho da O.M.S. denominado "W.H.O.Consultation"
em paralelo, mas independente, dum "Expert Committee"
da A.D.A.. existência de membros comuns ambos os grupos de
trabalho trouxe resultados benéficos na grande similitude
das novas recomendações (a única diferença
reside na valorização da P.T.G.O. pela O.M.S., o que
não acontece pela A.D.A.).
Em 1997 o grupo de trabalho da A.D.A fez sua primeira publicação,
já com carácter definitivo, sobre os novos critérios
de diagnóstico e classificação da Diabetes
Mellitus, que se seguiu, em 1998, da O.M.S., embora sob forma de
relatório provisório.
Em 1999, já sob forma de "Report of W.H.O. Consultation"
(os conhecidos livros azuis da O.M.S.) as novas recomendações
são publicadas. Esta publicação, no entanto,
explicita não ser ainda uma publicação formal
da O.M.S, mas sim da responsabilidade dos membros do grupo de trabalho,
o que parece ter ver com questões de política interna
da OMS e não com qualquer propósito de modificação
posterior dos critérios publicados.
Esta publicação oficializou, nível mundial,
os novos critérios tendo adesão imediata da Federação
Internacional da Diabetes (I.D.F.) e de todas as Sociedades de Diabetologia
que se constituem seus membros, nomeadamente da Sociedade Portuguesa
de Diabetologia (S.P.D.).
A nível Nacional, S.P.D. conta com o apoio do grupo de trabalho
da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo
(S.P.E.D.M.), que atempadamente publicou os novos critérios.
A S.P.D. tem vindo encetar todos os esforços junto da Direcção
Geral de Saúde para que sejam modificados e tornadas recomendações
oficiais os critérios da O.M.S. 1999, o que implica uma modificação
dos critérios publicados no Programa de Controlo da Diabetes
(O.M.S., 1985). Esperamos vivamente que à data desta publicação
tal seja uma realidade.
O interesse que Comunidade Europeia está dispensar à
Diabetes Mellittus leva-nos ainda pensar que adesão oficial
aos novos critérios, abrangerá não só
Portugal mas os seus 15 países membros.
A tradução em Português que agora publicamos,
é para além de um dos deveres da S.P.D., na sua qualidade
de responsável científica junto da comunidade de profissionais
de saúde da área da Diabetes Mellitus, uma solicitação
da I.D.F., no âmbito da Declaração de St. Vincent
em colaboração com O.M.S./Europa.
Como adenda, gostaríamos apenas de esclarecer que não
há adesão da maioria dos países aos critérios
de diagnóstico da Diabetes Gestacional que agora se publicam,
em tudo idênticos aos de 1985. No momento presente está
em curso um estudo multicêntrico realizado em conjunto pela
O.M.S e A.D.A., designado "Hiperglycemia and Adverse Pregnancy
Outcomes" (H.A.P.O. study), com vista à proposta de
um protocolo uniforme de diagnóstico. O facto dos resultados
do estudo H.A.P.O. estarem previstos para apresentação,
em 2004, no âmbito da 5.ª Conferência sobre Diabetes
Gestacional, leva que se advogue que cada país continue seguir
o critério já adoptado (em Portugal o seguido é
o da 4.ª Conferência sobre Diabetes Gestacional), para
obviar modificações necessariamente transitórias.
A Direcção
da SPD
Relatório do grupo de peritos consultados pela OMS
Nota: Este documento não é uma publicação
formal da O.M.S. Os pontos de vista expressos são da responsabilidade
do grupo de trabalho.
Membros do grupo de trabalho
KGMM Alberti, University of Newcastle upon Tyne, UK, (Co Chairman)
P Aschner, ACD and Javerlana University, Bogota, Colombia
J-P Assal, University Hospital, Geneva, Switzerland
PH Bennett, NIDDK, Phoenix, AZ, USA
L Groop, University of Lund, Malmö, Sweden
J Jervell, Rikshospitalet, Oslo, Norway
Y Kanazawa, Jichi Medical School, Omiya, Japan
H Keen, Guy's Hospital and Medical School, London, UK
R Klein, University of Wisconsin Medical School, Madison, WI,
USA
J-C Mbanya , Centre Hospitalier et Universitaire de Yaoundé,
Cameroon
D McCarty, International Diabetes Institute, Caulfield, Australia
(Rapporteur)
A Motala, University of Natal, Congella, South Africa
Pan X-R, China-Japan Friendship Hospital, Beijing, China PR, (deceased
8 July 1997)
A Ramachandran, Diabetes Research Centre, Madras, India
N Samad, Dow Medical College & Civil Hospital, Karachi, Pakistan
N Unwin, University of Newcastle upon Tyne, UK (Rapporteur)
P Vardi, Schneider Children's Centre, Petah-Tikvah, Israel
PZ Zimmet, International Diabetes Institute, Caulfield, Australia,
(Co-Chairman)
Secretariado
A Alwan, World Health Organization, Geneva, Switzerland
H King, World Health Organization, Geneva, Switzerland
Observadores
M Berrens, Bayer, Germany R Kahn, American Diabetes Association,
USA
J Nolan, Institute for Diabetes Discovery, USA
S Pramming, Novo Nordisk, Denmark
RA Rizza, American Diabetes Association, USA
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Índice
1. Introdução
2. Definição e critérios de
diagnóstico da diabetes mellitus e outras categorias de intolerância
à glicose
2.1 Definição
2.2 Diagnóstico e critérios
utilizados
2.2.1 Diagnóstico
2.2.2 A Diabetes
nas crianças
2.3 Critérios de diagnóstico
2.3.1 Alteração
no valor de diagnóstico para concentrações
de glicose no sangue / plasma em jejum
2.3.2 Estudos epidemiológicos
2.3.3 Diagnóstico
Individual
3. Classificação
3.1 Classificações anteriores
3.2 Classificação revista
3.2.1 Aplicação
da nova classificação
3.3 Terminologia (Quadro 2)
4. Estádios clínicos da diabetes
mellitus e outras categorias de tolerância à glicose
4.1 Diabetes mellitus
4.2 Anomalia da regulação
da glicose - Anomalia da Tolerância à Glicose (ATG)
e Anomalia da Glicemia do Jejum (AGJ)
4.3 Normoglicemia
5. Tipos etiológicos (ver também
secção 7 e Quadro 2)
5.1 Tipo 1
5.2 Tipo 2
5.3 Outros tipos específicos
(Quadro 3)
6. Hiperglicemia e Diabetes Gestacional
6.1 Diagnóstico de diabetes
gestacional
7. Descrição dos tipos etiológicos
7.1 Tipo 1 (a destruição
das células-b conduz, geralmente, à deficiência
absoluta de insulina)
7.1.1 Diabetes Mellitus
auto-imune
7.1.2 Idiopática
7.2 Tipo 2 (predominante resistência
à insulina com deficiência relativa de insulina ou
perdominante)
7.3 Outros tipos específicos
7.3.1 Defeitos genéticos
da função das células-b
7.3.2 Defeitos genéticos
na acção da insulina
7.3.3 Doenças
do pâncreas exócrino
7.3.4 Endocrinopatias
7.3.5 Diabetes induzida
por fármacos ou químicos
7.3.6 Infecções
7.3.7 Formas específicas
pouco comuns de diabetes mellitus imunomediada
7.3.8 Outros síndromas
genéticos por vezes associados diabetes
8. O Síndroma Metabólico
8.1 Definição
8.2 Necessidades Futuras
Referências
Anexo 1 prova de Tolerância à Glucose
Oral
Anexo 2 Métodos para determinação
de substâncias no sangue e na urina
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1. Introdução
No final da década de 70, OMS (1) e o "National
Diabetes Data Group" (2), prepararam novos critérios
para o diagnóstico da diabetes mellitus bem como um novo
sistema para sua classificação. Isto veio trazer
ordem uma situação caótica na qual nomenclatura
era variável e os critérios de diagnóstico
apresentavam enormes variações com utilização
de diferentes doses orais de glicose. Em 1985 OMS modificou ligeiramente
os seus critérios de forma torná-los mais coincidentes
com os valores do "National Diabetes Data Group" (3).
Há mais dados agora disponíveis, e para além
disso existe também muito mais informação
etiológica. Pareceu pois ser altura certa para reexaminar
estes phpectos e actualizar e aperfeiçoar quer classificação
quer os critérios bem como incluir uma definição
de "Síndroma Metabólico".
Foi reunido um grupo de peritos da Associação Americana
de Diabetes para discutir estes assuntos. As suas recomendações
foram publicadas em 1997 (4). OMS convocou uma Consultadoria sobre
o mesmo assunto em Londres, Reino Unido, em Dezembro de 1996.
No geral os grupos da Associação Americana de Diabetes
e da OMS chegaram conclusões semelhantes.
O relatório preliminar resultante da Consultadoria da OMS
(5) solicitou alguns comentários que foram considerados
na preparação do presente relatório. Tanto
o relatório preliminar como este foram preparados pelos
Professores K.G.M.M. Alberti e P.Z. Zimmet em representação
dos membros do grupo da Consultadoria. Esta reunião foi
possível devido ao apoio financeiro da Bayer, Reino Unido;
Bayer, Alemanha; Novo Nordisk, Copenhaga, Dinamarca, e do Instituto
para Pesquisa da Diabetes, New Haven, EUA.
2. Definição e critérios de diagnóstico
da diabetes mellitus e outras categorias de intolerância à
glicose
2.1 Definição
O termo diabetes mellitus descreve uma desordem metabólica
de etiologia múltipla, caracterizada por uma hiperglicemia
crónica com distúrbios no metabolismo dos hidratos
de carbono, lípidos e proteínas, resultantes de
deficiências na secreção ou acção
da insulina, ou de ambas. Os efeitos da diabetes mellitus longo
prazo, incluem danos, disfunção e falência
de vários orgãos. diabetes mellitus pode apresentar
sintomas característicos tais como sede, poliúria,
visão turva e perda de peso. Em casos mais graves pode
desenvolver-se cetoacidose, ou um estado hiperosmolar não-cetónico
que pode conduzir letargia, coma e, na ausência de tratamento
adequado, à morte. Na maioria das vezes os sintomas não
são graves, podendo até estar ausentes, e consequentemente
pode estar presente durante muito tempo uma hiperglicemia suficiente
para causar alterações patológicas e funcionais,
antes de ser feito o diagnóstico.
Os efeitos longo prazo
da diabetes mellitus incluem, o desenvolvimento progressivo das
complicações específicas de retinopatia diabética
com potencial cegueira, nefropatia que pode conduzir insuficiência
renal, e/ou neuropatia com risco de ulcerações nos
pés, amputações, artropatia de Charcot e
sinais de disfunção autonómica, incluindo
disfunção sexual. As pessoas que sofrem de diabetes
têm um risco aumentado de doença cardiovascular,
vascular periférica e cerebrovascular. Estão envolvidos
no desenvolvimento da diabetes, vários mecanismos patogénicos.
Estes incluem mecanismos que destroiem as células-b do
pâncreas com consequente deficiência de insulina,
e outros que resultam na resistência à acção
da insulina. As perturbações nos metabolismos glucídico,
lipídico e protídico devem-se à deficiente
acção da insulina nos tecidos alvo que resulta da
insensibilidade ou falta de insulina.
2.2 Diagnóstico e critérios diagnósticos
2.2.1 Diagnóstico
Se é feito um diagnóstico de diabetes, o clínico
tem que estar certo de que este está perfeitamente correcto
uma vez que as consequências para o doente são
consideráveis e para toda vida. Os requisitos para confirmação
do diagnóstico numa pessoa com sintomatologia grave e
grande hiperglicemia, diferem dos necessários numa pessoa
assintomática com valores de glicemia apenas ligeiramente
acima do valor limite para o diagnóstico. Uma hiperglicemia
grave detectada em condições de stress agudo infeccioso,
traumático, circulatório ou outro pode ser transitória
e não deve por si só ser considerada como diagnóstica
de diabetes. O diagnóstico numa pessoa assintomática
nunca deve ser feito com base num único valor anormal
de glicemia. Para o doente assintomático é essencial
pelo menos mais um teste à glicose no sangue/plasma com
resultado positivo, quer em jejum, ao acaso ou numa prova de
tolerância à glicose oral (PTGO). Se estes testes
não permitirem confirmação do diagnóstico
de diabetes mellitus, é geralmente aconselhável
manter vigilância e fazer novos testes periodicamente
até que o diagnóstico seja claro.
Nestas circunstâncias,
o clínico deve ter em consideração alguns
factores adicionais tais como etnia, história familiar,
idade, obesidade e patologias concomitantes, antes de tomar
uma decisão referente ao diagnóstico ou terapêutica.
Há muito tempo que se pensa numa alternativa à
determinação da glicemia ou à PTGO de forma
simplificar o diagnóstico de diabetes mellitus. Pensou-se
que hemoglobina glicada, que reflecte o valor médio da
glicemia num período de algumas semanas, poderia ser
essa alternativa. Embora em alguns casos hemoglobina glicada
permita obter uma sensibilidade e especificidade iguais ou quase
iguais à determinação da glicose (6), não
está disponível em algumas partes do mundo e ainda
não está suficientemente bem estandardizada para
que sua utilização possa ser recomendada nesta
altura.
2.2.2 diabetes nas crianças
Nas crianças, diabetes mellitus apresenta-se, geralmente,
com sintomas grave, valores de glicemia muito elevados, glicosúria
marcada e cetonúria. Na maioria das crianças,
o diagnóstico é confirmado, rapidamente, pela
determinação da glicemia e o tratamento (incluíndo
insulinoterapia) é iniciado imediatamente sendo, muitas
vezes, determinante para sobrevida. Nestas circunstâncias,
PTGO não é necessária nem adequada para
o diagnóstico. No entanto, uma pequena proporção
de crianças e adolescentes apresenta sintomas menos graves.
Nestes, determinação da glicemia em jejum e/ou
PTGO podem ser necessárias para o diagnóstico.
2.3 Critérios de diagnóstico
O diagnóstico clínico de diabetes é,
muitas vezes, sugerido pela presença de sintomas como:
aumento da sede e do volume urinário, infecções
recorrentes, perda de peso inexplicável e, em casos graves,
sonolência e coma. Estão, geralmente, presentes
níveis elevados de glicosúria. Nestas situações,
obtenção de uma glicemia acima dos valores de
diagnóstico indicados na Figura 1 (zona negra), estabelece
o diagnóstico. Figura 1, também, define os valores
de glicemia abaixo dos quais o diagnóstico de diabetes
é improvável fora da gravidez. Estes critérios
são semelhantes aos do relatório de 1985 (3).
nível clínico, PTGO só precisa de ser realizada
para estabelecer o diagnóstico se os valores de glicemia
resultantes de uma análise ao acaso se situarem num intervalo
incerto (i.e. entre valores que estabelecem ou excluem diabetes)
e os valores de glicemia em jejum estiverem abaixo dos que permitem
estabelecer o diagnóstico de diabetes. Na PTGO basta
determinação da glicemia em jejum e 2 horas após
ingestão de 75 g de glicose (Anexos 1 e 2). Nas crianças
dose oral de glucose é determinada com base no peso corporal:
1,75 g por Kg. Os critérios de diagnóstico, nas
crianças, são semelhantes aos utilizados nos adultos.
As interpretações dos valores da glicemia em jejum
e 2 h após ingestão de glicose, fora da gravidez,
são apresentadas na Tabela 1.
2.3.1 Alteração no valor de diagnóstico
para concentrações de glicose no sangue/plasma em
jejum.
A principal alteração recomendada, nos critérios
de diagnóstico de diabetes mellitus, é diminuição
do valor de diagnóstico da concentração
plasmática da glicose em jejum para 7,0 mmol L-1 (126
mg dL-1) e valores superiores (3) em substituição
do anterior valor de 7,8 mmol L-1 (140 mg dL-1). Para o sangue
total, o novo valor proposto é de 6,1 mmol L-1 (110 mg
dL-1) e acima, em substituição do anterior valor
de 6,7 mmol L-1 (120 mg dL-1).
O novo critério utilizado para o jejum, é escolhido
de forma representar um valor que está no limite superior
da escala e que, em termos de diagnóstico corresponde,
em muitas pessoas, à concentração que apresentam
na determinação das 2 h após sobrecarga
de glicose, qual não é alterada. Esta equivalência
foi estabelecida através de diversos estudos populacionais
(6-8) e representa, também, um ponto óptimo de
"cut-off" para separar os componentes das distribuições
de frequência bimodal de concentrações plasmáticas
de glicose em jejum observadas em várias populações.
Para além disso, vários estudos revelaram existência
de risco acrescido para doença microvascular em pessoas
com concentrações plasmáticas de glicose
em jejum iguais ou superiores 7,0 mmol L-1 (126 mg dL-1) (6)
e para doença macrovascular em pessoas com esses valores
em jejum, mesmo naquelas que apresentam um valor inferior 7,8
mmol L-1 (140 mg dL-1) (9) na determinação plasmática
2 h após ingestão da sobrecarga de glicose. No
entanto, indivíduos menos obesos, alguns grupos étnicos
e os idosos, podem apresentar valores baixos de glicemia em
jejum e terem valores às 2 h após sobrecarga de
glicose que fazem o diagnóstico de diabetes.
2.3.2 Estudos epidemiológicos
Nos estudos populacionais de intolerância à glicose
e diabetes, as pessoas foram classificadas pela glicemia em
jejum e/ou às 2 h após ingestão de 75 g
de glicose. Uma vez que pode ser difícil confirmar o
estado de jejum e devido à forte correlação
entre os valores de glicemia em jejum e às 2 h após
sobrecarga de glicose, os estudos epidemiológicos ou
os de rastreio foram restringidos, no passado, apenas aos valores
das 2 h (Tabela 1). Embora esta continue ser melhor escolha,
caso não seja possível realização
da PTGO (por razões logísticas ou económicas)
determinação isolada da glicose plasmática
em jejum pode ser utilizada para fins epidemiológicos.
No entanto, foi agora claramente demonstrado que alguns dos
indivíduos identificados pelos novos valores do jejum
diferem dos que foram identificados pelo valor das 2 h após
sobrecarga (10,11). Incluem-se neste caso os idosos (12) e as
pessoas menos obesas, tal como muitas populações
asiáticas. Por outro lado, os doentes de meia idade e
obesos têm maior probabilidade de apresentarem valores
de glicemia em jejum que fazem o diagnóstico de diabetes
(10). prevalência global na população pode
ser diferente (13) ou não (7,10,14) quando comparados
os valores em jejum e às 2 h.
2.3.3 Diagnóstico individual
Os requisitos para o diagnóstico individual diferem
dos utilizados nos estudos populacionais. O diagnóstico
não deve ser baseado numa determinação
isolada da glicemia. confirmação pode ser efectuada
através da presença dos sintomas ou de nova determinação
sanguínea/plasmática. O diagnóstico requer
identificação de pessoas em risco de desenvolverem
complicações e, nas quais, estão indicadas
estratégias preventivas precoses. Idealmente, devem ser
utilizados os valores em jejum e às 2 h após sobrecarga.
Estas recomendações contrastam com as da Comissão
de Peritos da Associação Americana de Diabetes
que dão preferência à glicose plasmática
em jejum (4).
3. Classificação
3.1 Classificações anteriores
A primeira classificação amplamente aceite de
diabetes mellitus foi publicada, pela OMS, em 1980 (1) e, numa
forma modificada, em 1985 (3). As classificações
de 1980 e 1985, de diabetes mellitus e das categorias associadas
de intolerância à glicose, incluíram classes
clínicas e duas classes de risco estatísticos. comissão
de peritos de 1980 propôs duas grandes classes de diabetes
mellitus que denominaram de: diabetes mellitus insulino-dependente
(DMID) ou Tipo 1 e diabetes mellitus não insulino-dependente
(DMNID) ou Tipo 2. No Relatório do Grupo de Estudo de 1985,
os termos Tipo 1 e Tipo 2 foram omitidos mas as classes DMID e
DMNID mantidas e foi introduzida classe de diabetes mellitus relacionada
com má nutrição (DMRMN). Em ambos os relatórios
de 1980 e 1985, outras classes de diabetes incluíam: Outros
Tipos, Diminuição da Tolerância à Glucose
(DTG) e Diabetes Mellitus Gestacional (DMG). Estas classes reflectiram-se
na subsequente Nomenclatura Internacional de Doenças (NID-10),
de 1991, e na 10.ª Revisão da Classificação
Internacional de Doenças (ICD-10), DE 1992. classificação
de 1985 foi amplamente aceite e é utilizada internacionalmente.
Esta representou um compromisso entre classificação
clínica e etiológica e permitiu classificação
de pessoas e doentes, mesmo quando causa ou etiologia era desconhecida.
classificação recomendada inclui ambas as vertentes
para o diagnóstico de diabetes mellitus, baseada nos critérios
clínicos e complementada com classificação
etiológica.
3.2 Classificação revista
A classificação envolve tanto os estádios
clínicos como os tipos etiológicos de diabetes mellitus
e outras categorias de hiperglicemia, conforme sugerido por Kuzuya
e Matsuda (15).
Os estádios clínicos reflectem que diabetes, independentemente
da sua etiologia, progride por várias fases no decurso
da história natural. Para além disso, os doentes
podem passar de um estádio para o outro e em qualquer direcção.
As pessoas que têm ou que estão desenvolver diabetes
mellitus, podem ser classificados num estádio de acordo
com as características clínicas, mesmo na ausência
de informação relacionada com etiologia subjacente.
classificação segundo etiologia deve-se à
melhoria na compreensão das causas da diabetes mellitus.
3.2.1 Aplicação da nova classificação
A nova classificação contem estádios
que reflectem os vários níveis de hiperglicemia,
independentemente dos mecanismos que podem conduzir ao aparecimento
de diabetes mellitus.
Todos os doentes com diabetes mellitus podem, em qualquer circunstância,
ser classificados de acordo com o estádio clínico.
O estádio de glicemia pode alterar-se com o tempo, dependendo
da extensão da doença subjacente (Figura 2). O
mecanismo da doença pode estar presente mas não
ter progredido o suficiente para provocar hiperglicemia. classificação
etiológica reflecte o facto de o defeito ou o processo
que podem conduzir à diabetes mellitus, poderem ser identificados
em qualquer estádio do desenvolvimento da diabetes, mesmo
num de normoglicemia. Deste modo, num indivíduo normoglicémico,
presença de anticorpos contra as células dos ilhéus
torna provável que essa pessoa tenha o mecanismoauto-imune
do Tipo 1.
Infelizmente, existem, actualmente, poucos indicadores
sensíveis ou altamente específicos para o mecanismo
do Tipo 2 embora, estes sejam, provavelmente, revelados à
medida que etiologia é identificada. Os mesmos mecanismos
da doença podem provocar anomalia da glicemia do jejum
e/ou anomalia da tolerância à glicose, sem satisfazerem
os critérios para o diagnóstico diabetes mellitus.
Em algumas pessoas com diabetes, pode ser atingido um controlo
adequado da glicemia através da redução
do peso, exercício físico e/ou antidiabéticos
orais. Deste modo, estes doentes, não necessitam de insulina
e podem até regredir para anomalia da tolerância
à glicose ou normoglicemia. Outras pessoas necessitam
de insulina para obterem um controlo adequado da glicemia mas
conseguem sobreviver sem ela. Estas, por definição
possuem uma secreção residual de insulina. As
pessoas com destruição extensa das células
ß e, deste modo, sem secreção residual de
insulina, necessitam dela para sobreviverem. gravidade da anomalia
metabólica pode regredir (ex. com redução
do peso), progredir (ex. com o aumento de peso) ou manter-se.
3.3 Terminologia (Quadro 2)
É recomendado que os termos "diabetes mellitus insulinodependente"
e "diabetes mellitus não insulinodependente"
deixem de ser utilizados. Estes termos têm sido confusos
e resultaram, frequentemente, na classificação de
doentes com base no tratamento em vez da patogénese.
Os termos Tipo 1 e Tipo 2 devem ser re-introduzidos. O tipo etiológico
designado por Tipo 1 engloba maioria dos casos que resultam, principalmente,
da destruição das células ß dos ilhéus
pancreáticos e são propensos terem cetoacidose.
O Tipo 1 inclui os casos que são atribuídos processos
auto-imunes bem como aqueles em que há destruição
das células ß e propensão para cetoacidose
mas, nos quais, não é conhecida etiologia nem patogénese
(idiopático). Não inclui aquelas formas em que falência
ou destruição das células ß possam
ser atribuídas causas específicas (ex. fibrose cística,
defeitos mitocondriais, etc.). Algumas pessoas com este tipo podem
ser identificados em estádios clínicos prévios
à "diabetes mellitus".
O tipo designado por Tipo 2 engloba forma mais comum de diabetes
que resulta de defeitos na secreção de insulina,
quase sempre com uma grande contribuição da insulinorresistência.
Tem sido discutido que o fenótipo magro da diabetes mellitus
Tipo 2 em adultos detectado no subcontinente indiano possa ser
distinto da forma mais característica do Tipo 2 encontrado
nos caucasiano. No entanto, não existe informação
suficiente, para caracterizar separadamente estas pessoas.
Um recente workshop internacional reviu evidência e as características
da diabetes mellitus observada nas populações subnutridas
(16,17). Enquanto que subnutrição parece poder influenciar
expressão de vários tipos de diabetes, evidência
de que diabetes possa ser causada pela má nutrição
ou pela deficiência proteíca só por si, não
é convincente. Assim, recomenda-se que classe "diabetes
mellitus relacionada com má nutrição"
(DMRMN) seja eliminada. O anterior subtipo da DMRMN, diabetes
pancreática por deficiência proteíca, pode
ser considerado como uma forma de diabetes mellitus modificada
ou modulada pela má nutrição para o qual
mais estudos são necessários. O outro subtipo anterior
de DMRMN, diabetes pancreática fibrocalculosa, é
agora classificado com uma patologia do pâncreas exócrino,
pancreopatia fibrocalculosa, que pode conduzir diabetes mellitus.
Classe "Diminuição da Tolerância à
Glucose" é, agora, classificada como um estádio
de anomalia da regulação da glucose, uma vez que
pode ser observada em qualquer situação de hiperglicemia
e não é diabetes. o
O estádio clínico de Anomalia da Glicemia do Jejum
foi introduzido para classificar as pessoas que têm valores
de glicemia em jejum acima do normal mas abaixo dos valores que
fazem o diagnóstico de diabetes.
Diabetes Gestacional é mantida mas inclui, agora, os grupos
anteriormente classificados como Deficiência Gestacional
da Tolerância à Glucose (DGTG) e Diabetes Mellitus
Gestacional (DMG).
4. Estádios clínicos da diabetes mellitus
e outras categorias de tolerância à glicose (Figura
2).
4.1 Diabetes Mellitus
A diabetes mellitus, independentemente da causa subjacente,
está subdividida em: necessidade de insulina para sobreviver
(deficiência em péptido C) e que corresponde à
antiga classe clínica de "Diabetes Mellitus Insulino-Dependente
- DMDI"; necessidade de insulina para o controlo metabólico,
e não para sobreviver (existe alguma secreção
endógena de insulina mas, esta, é insuficiente para
atinguir normoglicemia sem administração de insulina
exógena); sem necessidade de insulina (i.e. nos casos em
que glicemia pode ser controlada satisfatoriamente por métodos
não farmacológicos ou fármacos que não
insulina). Juntas, estas duas últimas subdivisões
constituem antiga classe de DMNID.
4.2 Anomalia da regulação da glicose - Anomalia
da Tolerância à Glicose (ATG) e Anomalia da Glicemia
do Jejum (AGJ)
A anomalia da regulação da glicose (ATG e AGJ)
refere-se um estádio metabólico intermédio
entre homeostase normal da glicose e diabetes. No entanto, deve
ser inequivocamente referido, que ATG e AGJ não são
iguais e representam diferentes anomalias da regulação
da glicose, uma no período de jejum e outra no período
pós-prandial.
A ATG (ou diminuição da tolerância à
glicose, DTG) em vez de ser considerada como uma classe como na
anterior classificação, é classificada como
estádio na história natural da desordem do metabolismo
dos hidratos de carbono. Também é reconhecido um
estádio de AGJ porque estas pessoas, tal como as que têm
ATG, têm um risco aumentado de progredir para diabetes e
doença macrovascular, embora os dados prospectivos sejam
escassos e os dados iniciais sugerirem um menor risco de progressão
do que ATG (18), embora um perfil de risco cardiovascular semelhante
tenha sido demonstrado em doentes com AGJ e ATG (19). AGJ refere-se
concentrações da glicose em jejum que são
inferiores às necessárias para diagnosticar diabetes
mellitus, mas superiores ao valor "normal" de referência.
Os valores para AGJ são uma glicemia em jejum igual ou
superior 6,1 mmol L (110 mg/ dL) (sangue total 5,6 mmol L ; 100
mg dL), e inferior 7,0 mmol L (126 mg/ dL) (sangue total 6,1 mmol
L; 100 mg dL). Se for realizada uma PTGO, algumas pessoas com
AGJ irão ter ATG ou diabetes, mas isto não pode
ser determinado sem este teste. Se os meios o permitirem, é
recomendado que todas as pessoas com AGJ façam uma PTGO
para excluir o diagnóstico de diabetes.
As pessoas que cumprem os critérios de ATG ou AGJ podem
na sua vida diária ser euglicémicos, conforme demonstrado
por valores de hemoglobina glicada normais ou quase "normais".
ATG e AGJ não são entidades clínicas mas
sim categorias de risco para diabetes e/ou doença cardiovascular
(20,21). Podem ocorrer como num estádio intermediário
em qualquer um dos processos patológicos referidos no Quadro
2. ATG está muitas vezes associada ao Síndroma Metabólico
(síndroma de resistência à insulina) (22).
Desta forma, ATG pode não estar directamente envolvida
na patogénese da doença cardiovascular, mas pode
sim servir como indicador ou marcador do aumento do risco em virtude
da sua correlação com os outros elementos do Síndroma
Metabólico que são factores de risco cardiovascular.
Evidentemente, esses indivíduos com ATG apenas manifestam
intolerância à glicose quando submetidos sobrecarga
oral de glicose.
4.3 Normoglicemia
Uma concentração plasmática venosa de glicose
em jejum menor que 6,1 mmol L-1 (110 mg dL-1) foi escolhida como
"normal" (Quadro 1). Embora esta escolha seja arbitrária,
estes valores são observados em pessoas que provaram ter
tolerância normal à glicose, mesmo que apresentem
ATG se for realizada uma PTGO. Valores acima deste estão
associados um risco cada vez maior de desenvolverem complicações
micro e macrovasculares (8,9,21,23).
Os processos patológicos ou etiológicos que geralmente
conduzem à diabetes mellitus começam, e podem ser
reconhecidos, em algumas pessoas que apresentam tolerância
normal à glicose. O reconhecimento do processo patológico
num estádio precoce pode ser útil no caso de ser
possível prevenção de estádios mais
avançados da doença. Contrariamente, os tratamentos
apropriados ou ocasionalmente história natural de algumas
formas de diabetes mellitus, podem resultar em reversão
da hiperglicemia para um estádio de normoglicemia. classificação
proposta inclui um estádio de normoglicemia no qual são
classificadas as pessoas que apresentam evidências de um
processo patológico que pode conduzir diabetes mellitus,
ou nas quais ocorreu uma reversão da hiperglicemia.
5. Etiologia da doença (ver também secção
7 e o Quadro 2)
Os tipos etiológicos designam defeitos, alterações
ou processos que, muitas vezes, resultam em diabetes mellitus.
5.1 Tipo 1
O Tipo 1 refere-se ao processo de destruição de
células ß que pode conduzir, no final, à diabetes
mellitus, na qual "insulina é necessária para
sobreviver" de forma prevenir o desenvolvimento de cetoacidose,
coma e morte. Uma pessoa com um processo do Tipo 1 pode estar
metabolicamente normal antes da doença se manifestar clinicamente
mas o processo de destruição das células
ß pode ser detectado. O Tipo 1 é, geralmente, caracterizado
pela presença de anticorpos anti-GAD (descarboxilase do
ácido glutâmico), anticorpos contra as células
dos ilhéus ou contra insulina e que identificam o processo
auto-imune que conduz à destruição das células
b. Em alguns doentes com esta forma clínica de diabetes,
particularmente os não caucasianos, não é
possível demonstrar qualquer evidência deste processo
auto-imune, sendo classificados como de "Tipo 1 idiopático".
classificação etiológica pode só ser
possível em algumas circunstâncias. Assim, o processo
etiológico do Tipo 1 pode ser identificado e subclassificado
se forem realizadas determinações apropriadas dos
anticorpos. Reconhece-se que, actualmente, tais determinações
só são possíveis em certos centros. Se estas
determinações forem realizadas, classificação
do doente deve reflectir isso.
5.2 Tipo 2
O Tipo 2 é forma mais comum de diabetes e é caracterizado
por distúrbios na acção e secreção
da insulina, podendo qualquer uma delas ser predominante. Ambas
estão, geralmente, presentes no momento em que esta forma
diabetes se manifesta clinicamente. Por definição,
as razões específicas para o desenvolvimento destas
anomalias ainda não são conhecidas.
5.3 Outros tipos específicos (Quadro 3)
Os outros tipos específicos são, geralmente, causas
menos comuns de diabetes mellitus mas é neles que anomalia
subjacente ou o processo patológico podem ser identificados
de uma forma relativamente específica. Estes incluem, por
exemplo, pancreopatia fibrocalculosa, uma forma de diabetes que
era, anteriormente, classificada como um tipo de diabetes mellitus
relacionado com má nutrição.
6. Hiperglicemia e Diabetes Gestacional
A diabetes gestacional refere-se à intolerância
aos hidratos de carbono que resulta em hiperglicemia de gravidade
variável e que tem início ou é reconhecida
durante gravidez. Não exclui possibilidade da intolerância
à glicose anteceder gravidez e de não ter sido,
previamente, reconhecida. definição aplica-se, independentemente,
de ser necessária ou não utilização
de insulina para o tratamento ou de o problema persistir após
gravidez.
Nas mulheres com diabetes mellitus prévia à gravidez,
quando engravidam não têm diabetes gestacional mas
sim "diabetes mellitus e gravidez" devendo ser tratadas
de acordo com isto, antes, durante e depois da gravidez. Na fase
inicial da gravidez (i.e. primeiro trimestre e primeira metade
do segundo), as concentrações de glicose, em jejum
e pós-prandiais, são, geralmente, mais baixas do
que o das mulheres normais não grávidas. Nesta fase
da gravidez, valores elevados de glicose plasmática, em
jejum ou pós-prandiais, podem reflectir presença
de diabetes prévia à gravidez mas, os critérios
para designar concentrações de glicose anormalmente
elevadas nesta fase, ainda não foram estabelecidos. Concentrações
de glicose plasmática mais elevadas do que o normal, neste
período da gravidez, obriga uma cuidadosa vigilância
e pode ser uma indicação para realização
da PTGO (Anexo 1). No entanto, na fase inicial da gravidez, tolerância
normal à glicose não implica, só por si,
que diabetes gestacional não possa desenvolver-se mais
tarde.
As mulheres com risco elevado para diabetes gestacional são:
mulheres mais velhas, as que têm história prévia
de intolerância à glicose ou de bébés
grandes para idade gestacional, mulheres pertencentes grupos étnicos
de risco elevado e qualquer mulher grávida que tenha valores
de glicemia, em jejum ou ao acaso, elavados. Poderá ser
apropriado fazer-se o rastreio, no primeiro trimestre da gravidez,
nas mulheres que pertencem populações de alto risco,
de forma detectar uma diabetes mellitus previamente não
diagnosticada. As provas de rastreio para diabetes gestacional
são feitas, geralmente, entre as 24.ª e as 28.ª
semanas de gestação.
6.1 Diagnóstico da Diabetes Gestacional
Para o diagnóstico de diabetes gestacional, deve ser
realizada uma PTGO, após um jejum de 8 14 horas, com administração
de 75 g de glicose em 250 300 ml de água (Anexo 1). glicose
plasmática é medida em jejum e 2 h após ingestão
do soluto. As mulheres grávidas que cumprem os critérios
da O.M.S. para diabetes mellitus ou para ATG são classificadas
como tendo diabetes mellitus gestacional (DMG). Após gravidez,
mulher deve ser reclassificada como tendo diabetes mellitus, ATG
ou tolerância normal à glicose, com base nos resultados
da PTGO com 75 g de glicose e efectuada, seis ou mais semanas,
após o parto. Deve ser enfatizado que estas mulheres, independentemente
do resultado obtido às 6 semanas após o parto, têm
um risco aumentado para, posteriormente, desenvolverem diabetes.
O significado da ATJ na gravidez ainda não está
estabelecido. No entanto, qualquer mulher com ATJ deve fazer uma
PTGO com 75 g de glicose.
7. Descrição dos tipos etiológicos
Os doentes, independentemente da forma de diabetes que têm
, podem precisar de tratamento com insulina em algum estádio
da sua doença. Essa utilização de insulina
não define classe etiológica.
7.1 Tipo 1 (a destruição das células
ß conduz, geralmente, à deficiência absoluta
de insulina)
7.1.1 Diabetes Mellitus Auto-imune
A diabetes mellitus auto-imune, anteriormente incluída
na designação diabetes mellitus insulino-dependente,
diabetes Tipo 1 ou diabetes com início no jovem, resulta
da destruição, através de um mecanismo
auto-imune, das células pancreáticas b. velocidade
de destruição é muito variável,
podendo ser rápida em algumas pessoas e lenta noutras
(24). forma de progressão rápida é, frequentemente,
observada em crianças mas pode, também, ocorrer
em adultos (25). forma de progressão lenta ocorre, geralmente,
nos adultos e, por vezes, é referida como diabetes latente
auto-imune do adulto (LADA). Alguns doentes, particularmente
as crianças e os adolescentes, podem apresentar cetoacidose
como primeira manifestação da doença (26).
Outros têm uma hiperglicemia ligeira em jejum que pode
evoluir, rapidamente, para uma hiperglicemia grave e/ou cetoacidose
na presença de uma infecção ou de outra
situação de stress. Em outros, particularmente
adultos, as células ß podem manter uma função
residual, durante muitos anos, suficiente para prevenir cetoacidose
(27). As pessoas que têm esta forma de diabetes Tipo 1
tornam-se, geralmente, dependentes da insulina para sobreviverem
e estão em risco de desenvolverem cetoacidose (28). Nesta
fase da doença, secreção de insulina é
muito pequena ou inexistente. Isto traduz-se em valores plasmáticos
de péptido C baixos ou indetectáveis (29).
Os marcadores da destruição imunitária,
incluíndo os anticorpos contra as células dos
ilhéus e/ou contra insulina e os anticorpos contra descarboxilase
do ácido glutâmico (GAD), estão presentes
em 85 90% dos indivíduos com diabetes mellitus Tipo 1
quando hiperglicemia em jejum é, inicialmente, detectada
(30). O pico de incidência desta forma de diabetes Tipo
1 ocorre na infância e adolescência, mas o seu início
pode ocorrer em qualquer idade, desde infância até
à nona década de vida (31). Há uma predisposição
genética para destruição auto-imune das
células ß que está, também, relacionada
com factores ambientais ainda pouco definidos. Embora os doentes
que apresentam esta forma de diabetes não são,
geralmente, obesos, presença de obesidade não
é incompatível com o diagnóstico. Estes
doentes podem ter, também, outras doenças auto-imunes
tais como: Doença de Graves, Tiroidite de Hashimoto e
Doença de Addison (32).
7.1.2 Idiopática
Existem algumas formas de diabetes Tipo 1 cuja etiologia não
é conhecida. Alguns destes doentes apresentam uma insulinopenia
permanente e tendência para cetoacidose mas, não
apresentam qualquer evidência de um processo auto-imune
(33). Esta forma de diabetes é mais comum nos indivíduos
oriundos de África e da Ásia. Numa outra forma
detectada em africanos, necessidade absoluta de terapêutica
de substituição com insulina pode não ser
constante e os doentes desenvolvem, periodicamente, cetoacidose
(34).
7.2 Tipo 2 (predomínio da insulinorresistência
com deficiência relativa de insulina ou predomínio
de defeitos na secreção de insulina com/sem insulinorresistência)
A diabetes mellitus Tipo 2 incluída, anteriormente, na
diabetes não insulino-dependente ou diabetes com início
no adulto. É uma designação utilizada para
os indivíduos que têm uma deficiência relativa
(ao invés de absoluta) de insulina. As pessoas com esta
forma de diabetes são, frequentemente, resistentes à
acção da insulina (35, 36). Inicialmente, e muitas
vezes durante toda vida, estas pessoas não necessitam de
insulina para sobreviverem. Frequentemente, este tipo de diabetes
mellitus permanece muitos anos sem ser diagnosticada pois, em
geral, hiperglicemia não é suficientemente elevada
para provocar sintomas de diabetes (37, 38). No entanto, estes
doentes apresentam um risco aumentado de desenvolverem complicações
macro e microvasculares (37, 38). Existem, provavelmente, vários
mecanismos que originam este tipo de diabetes e, é possível,
que o número de pessoas incluídas neste grupo venha
diminuir no futuro, à medida que os processos patogénicos
e os defeitos genéticas específicos permitam uma
melhor diferenciação e uma classificação
mais definitiva com transferência para categoria "Outros
Tipos". Embora as etiologias específicas desta forma
de diabetes sejam desconhecidas por definição não
ocorre destruição auto-imune do pâncreas e
os doentes não têm as outras causas específicas
conhecidas e referidas nas Tabelas 3-5.
A maioria dos doentes com este tipo de diabetes são obesos.
obesidade, só por si, provoca ou agrava insulinorresistência
(39, 40). Muitos dos doentes que não são obesos,
pelos critérios tradicionais, podem apresentar uma percentagem
de gordura corporal aumentada e distribuída, predominantemente,
na região abdominal (41).
A cetoacidose não é frequente nesta forma de diabetes;
quando ocorre está, geralmente, associada com ao stress
provocado por outra doença como, por exemplo, uma infecção
(42, 43). Embora os doentes com este tipo de diabetes possam ter
níveis de insulina que parecem normais ou elevadas esperar-se-ia
que valores elevados de glicemia resultassem em níveis
de insulina ainda mais elevados, se função das células
ß fosse normal (44). Assim, sua secreção é
deficiente e insuficiente para compensar resistência à
insulina. Por outro lado, nalgumas pessoas acção
da insulina é normal mas sua secreção é
deficiente. sensibilidade à insulina pode ser aumentada,
embora não normalize, com redução do peso
corporal, aumento da actividade física e/ou tratamento
farmacológico da hiperglicemia (45, 46). O risco de diabetes
Tipo 2 aumenta com idade, obesidade e ausência de actividade
física (47, 48). Ocorre, mais frequentemente, em mulheres
com antecedentes de diabetes mellitus gestacional e em indivíduos
com hipertensão ou dislipidemia. sua frequência varia
em diferentes subgrupos raciais/étnicos (47-50). Encontra-se,
geralmente, associado uma predisposição familiar,
provavelmente genética (49-51).
No entanto, genética deste tipo de diabetes é complexa
e não está claramente definida. Alguns doentes que
apresentam um quadro clínico de diabetes Tipo 2, têm
auto-anticorpos semelhantes aos encontrados na diabetes Tipo 1
e, esta situação, pode ser confundida com diabetes
Tipo 2 se não for feita determinação desses
anticorpos. Os doentes que não são obesos ou que
têm familiares com diabetes Tipo 1 e que são oriundos
do Norte da Europa são suspeitos de terem diabetes Tipo
1 com início tardio.
7.3 Outros tipos específicos
7.3.1 Defeitos genéticos da função
das células b
Muitas formas da diabetes podem estar associadas com defeitos
monogénicos na função das células
ß e, frequentemente, caracterizadas pelo aparecimento
de hiperglicemia ligeira numa idade precoce (geralmente antes
dos 25 anos). São, habitualmente, herdados de forma autossómica
dominante. Os doentes com este tipo de diabetes, anteriormente
designado por diabetes do adulto iniciada na juventude (MODY),
têm uma diminuição na secreção
de insulina e defeitos mínimos ou inexistentes na sua
acção (52, 53). Estão, actualmente, caracterizadas
alterações em três loci genéticos.
forma mais frequente está associada mutações
no cromossoma 12, num factor de transcrição nuclear
hepático designado como HNF 1(54). Uma segunda forma
está associada mutações no gene da glucoquinase
situado no cromossoma 7p (55, 56). glucoquinase converte glicose
em glicose-6-fosfato cujo metabolismo, por sua vez, estimula
secreção de insulina pelas células b. Assim,
glucoquinase serve como um "sensor da glicose" nas
células b. Devido estes defeitos no gene da glucoquinase,
são necessários níveis mais elevados de
glicose para induzir níveis normais de secreção
de insulina. Uma terceira forma está associada uma mutação
no gene HNF 4a, situado no cromossoma 20q (57). O HNF 4a é
um factor de transcrição envolvido na regulação
da expressão do HNF 1a. Uma quarta variante foi, recentemente,
atribuída mutações num outro factor de
transcrição genético, IPF-1, que na sua
forma homozigótica conduz uma agenesia total do pâncreas
(58).
Estão, actualmente, ser identificados outros defeitos
genéticos específicos, em indivíduos com
clínica semelhante.
Pontos de mutação no DNA mitocondrial foram associados
à diabetes mellitus e surdez (59). mutação,
mais frequente, ocorre na posição 3243 no gene
do RNAt da leucina, conduzindo à substituição
de para G. Uma alteração idêntica acontece
no síndroma de MELAS (Miopatia Mitocondrial, Endocrinopatia,
Acidose Láctica e "Stroke-like syndrome").
No entanto, diabetes não faz parte deste síndroma,
o que sugere que, por razões desconhecidas, ocorrem diferentes
expressões fenotípicas nesta alteração
genética (60).
Foram detectadas em algumas famílias, alterações
genéticas que conduzem à incapacidade de converter
pró-insulina em insulina. Estas características
são, geralmente, herdadas de segundo um padrão
autossómico dominante (61, 62) e intolerância aos
hidratos de carbono que originam é ligeira. Da mesma
forma, foram identificadas em algumas famílias, mutações
nas moléculas de insulina que originam uma diminuição
na capacidade de ligação aos seus receptores.
Estas mutações estão, também, associadas
uma herança autossómica e ao normal ou uma ligeira
deficiência no metabolismo dos hidratos de carbono (63,
64).
7.3.2 Defeitos genéticos na acção
da insulina
Existem alguns casos, pouco comuns, de diabetes que resultam
de alterações genéticas na acção
da insulina. As alterações metabólicas
associadas às mutações no receptor da insulina
podem variar entre uma hiperinsulinemia e uma hiperglicemia
ligeira até à diabetes sintomática (65,
66). Algumas pessoas com estas mutações têm
acantose nigricans. As mulheres podem ter virilização
e ovários quísticos. No passado, este síndroma
era denominado de resistência à insulina Tipo (65).
O leprechaunismo e o síndroma de Rabson-Mendenhall são
dois síndromas pediátricos que têm mutações
no gene do receptor da insulina e, consequentemente, alterações
na função deste receptor e elevada insulinorresistência
(66). O primeiro apresenta características faciais próprias
enquanto o segundo está associado com anomalias nos dentes
e unhas e hiperplasia da glândula pineal.
7.3.3 Patologias do pâncreas exócrino
Qualquer processo que, de uma forma difusa, provoque danos
no pâncreas pode conduzir à diabetes. Estes processos
incluem pancreatite, traumatismos, infecções,
carcinoma do pâncreas e pancreatectomia (67, 68). Com
excepção do carcinoma, os danos no pâncreas
têm de ser extensos para que ocorra diabetes. No entanto,
os adenocarcinomas que envolvem, apenas, uma pequena porção
do pâncreas têm sido associados com diabetes. Isto
implica um outro mecanismo que não simples redução
na quantidade de células ß (69). fibrose quística
e hemocromatose, se forem suficientemente extensas, irão,
também, danificar as células ß e diminuir
secreção de insulina (70, 71). pancreopatia fibrocalculosa
pode ser acompanhada por dor abdominal com radiação
dorsal, calcificações pancreáticas observadas
no Raios-X e dilatação dos canais (72). Na autópsia,
é encontrada fibrose pancreática e cálculos
calcificados nos canais exócrinos.
7.3.4 Endocrinopatias
Existem várias hormonas (ex. hormona do crescimento,
cortisol, glucagon, adrenalina) que antagonizam acção
da insulina. As doenças associadas à secreção
excessiva destas hormonas podem provocar diabetes (ex. Acromegália,
Síndroma de Cushing, Glucagonona e Feocromocitoma) (73).
Estas formas de hiperglicemia, em geral, desaparecem com remoção
da fonte de hipersecreção hormonal.
O somatostatinoma e hipocaliémia induzida pela aldosterona
podem provocar diabetes devido, em parte, à inibição
da secreção de insulina (74,75). hiperglicemia
desaparece, normalmente, após remoção do
tumor.
7.3.5 Diabetes induzida por químicos ou fármacos
Muitos fármacos têm capacidade de diminuir secreção
de insulina. Estes, por si só, podem não causar
diabetes mas, podem precipitar doença em pessoas com
insulinorresistência (76,77). Nestes casos, classificação
é ambígua, uma vez que disfunção
das células ß ou insulinorresistência que
está subjacente é desconhecida. Algumas toxinas
tais como o Vacor (veneno de rato) e pentamidina podem destruir,
definitivamente, as células pancreáticas ß
(78,80). Felizmente, estas reacções são
raras. Existem, também, muito fármacos hormonas
que podem comprometer acção da insulina. É
o caso do ácido nicotínico e dos glucocorticóides
(71,72). lista apresentada no Quadro 4 inclui os fármacos,
hormonas ou toxinas que, mais frequentemente, induzem diabetes
e hiperglicemia.
7.3.6 Infecções
Alguns vírus têm sido associados com destruição
de células b. diabetes ocorre nalgumas pessoas com rubéola
congénita (81). Para além disso, o coxsackie B,
o citomegalovírus e outros vírus (ex. adenovírus
e papeira) têm sido implicados na indução
da doença (82,84).
7.3.7 Formas específicas pouco comuns de diabetes
mellitus imunomediada.
A diabetes pode estar associada várias doenças
imunológicas cuja patogénese ou etiologia são
diferentes das que originam diabetes Tipo 1. Uma hiperglicemia
pós-prandial suficientemente elevada para obedecer aos
critérios de diagnóstico de diabetes tem sido,
raramente, descrita em indivíduos que, espontaneamente,
desenvolvem auto-anticorpos contra insulina (85,86). No entanto,
estas pessoas apresentam, mais frequentemente, sintomas de hipoglicemia
do que de hiperglicemia. O "stiff man syndrome" é
uma desordem auto-imune do S.N.C. caracterizado por rigidez
dos músculos axiais com espasmos dolorosos (87). As pessoas
afectadas têm, geralmente, títulos elevados de
auto-anticorpos GAD e, aproximadamente, metade desenvolverá
diabetes. Nos doentes tratados com interferão alfa, tem
sido descrito o surgimento de diabetes associada auto-anticorpos
contra as células dos ilhéus e, em certos casos,
deficiência grave de insulina (88).
Os anticorpos contra os receptores da insulina podem provocar
diabetes ao unirem-se este receptor reduzindo, assim, ligação
da insulina aos tecidos alvo (89). No entanto, estes anticorpos
podem, também, funcionar como agonistas da insulina causado,
assim, hipoglicemia (90). Anticorpos contra os receptores da
insulina são, ocasionalmente, encontrados em doentes
com Lupus Eritematoso Sistémico e outras doenças
auto-imunes (91). Tal como noutras situações de
insulinorresistência extrema, os doentes com anticorpos
contra os receptores da insulina têm, muitas vezes, acantose
nigricans. No passado, este síndroma era designado por
resistência à insulina Tipo B.
7.3.8 Outros síndromas genéticos por vezes
associados com diabetes.
Em muitos síndromas genéticos, incidência
de diabetes mellitus está aumentada. È o caso
dos síndromas de Down, Klinefelter e Turner. O síndroma
de Wolfram é uma distúrbio autossómico
recessivo caracterizado por diabetes com deficiência de
insulina e pela ausência de células ß na
autópsia (92). Manifestações adicionais
incluem diabetes insípidas, hipogonadismo, atrofia óptica
e surdez neuronal. Estas e outras desordens similares estão
descritas no Quadro 5.
8. O Síndroma Metabólico
O maior desafio relativamente à classificação,
diagnóstico e terapêutica é pessoas com hipertensão,
obesidade central (parte superior) e dislipidemia com ou sem hiperglicemia.
Este grupo de pessoas tem um risco elevado de doença macrovascular
(22).
Frequentemente, numa pessoa com alteração da tolerância
à glicose (ATG ou diabetes), é detectado pelos menos
um ou mais de outros componentes de risco de doença cardiovascular
(22). Este conjunto tem sido denominado, de uma forma variada,
por: Síndroma X, Síndroma de Insulinorresistência
ou Síndroma Metabólico (47).
Os estudos epidemiológicos confirmam que este síndroma
ocorre, muito frequentemente, numa grande variedade de grupos
étnicos incluíndo Caucasianos, Afro-Americanos,
Hispano-Americanos, Indianos, Chineses, Aborígenes, Australianos,
Polinésios e Micronésios (47,93). Em 1988, Reaven
deu especial atenção esta situação
designando-a por Síndroma X (22). obesidade central não
foi incluída na descrição original. Assim,
o termo Síndroma Metabólico é, actualmente,
preferido.
Estão acumular-se evidências de que insulinorresistência
possa ser o factor etiológico comum para os diversos componentes
do Síndroma Metabólico (47,93,94). Mas, parece existir
heterogeneidade na força da relação entre
insulinorresistência e os diferentes componentes do síndroma
e mesmo dentro das populações. Por si só,
cada componente confere um aumento do risco de doença cardiovascular
mas combinação entre eles torna-os muito mais poderosos
(95). Isto significa que o tratamento de uma pessoa com hiperglicemia
e outras características do Síndroma Metabólico
deve incidir não apenas no controlo da glicemia mas, também,
em estratégias para redução dos outros factores
de risco cardiovascular (96).
Está bem documentado que as características do Síndroma
Metabólico podem estar presentes durante cerca de 10 anos
antes de serem detectadas as anomalias da glicemia (97). Isto
é importante relativamente à etiologia da hiperglicemia
e dos riscos cardiovasculares associados e à prevenção
potencial das doenças cardiovasculares, da sua morbilidade
e mortalidade, em pessoas com intolerância à glicose.
O Síndroma Metabólico com uma tolerância normal
à glicose identifica as pessoas com risco elevado de virem
ter diabetes. Assim, um tratamento precoce deste síndroma
pode ter um impacto significativo quer na prevenção
da diabetes quer da doença cardiovascular (98).
8.1 Definição
Não existe nenhuma definição do Síndroma
Metabólico acordada internacionalmente. seguinte, que não
implica uma relação causal, é sugerida como
um definição de trabalho que deve ser melhorada
seu tempo: intolerância à glucose, ATG ou diabetes
mellitus e/ou insulinorresistência juntamente com dois ou
mais dos componentes seguidamente descritos:
Anomalia da regulação da glucose ou diabetes (ver
Quadro 1),
Insulinorresistência (em condições de hiperinsulinemia
e euglicemia, captação de glicose abaixo do quartil
para população em investigação),
Tensão arterial elevada = 140/90 mmHg
Elevação dos triglicéridos plasmáticos
(= 1,7 mmol L-1 L-1; 150 mg/dL) e/ou diminuição
do colesterol HDL (< 0.9 mmol L-1/L, 35 mg dL-1 nos homens;
< 1,0 mmol L-1/L-1, 39 mg/dL nas mulheres),
Obesidade central (homens: razão cintura/anca > 0.90;
mulheres: razão cintura/anca > 0,85) e/ou BMI > 30
Kgm-2,
Microalbuminúria (excreção urinária
de albumina = 20 mg/min ou razão albumina:creatinina =
30 mg/g)
Vários outros componentes do Síndroma Metabólico
foram descritos (ex. hiperuricémia, alterações
na coagulação, elevação do PAI-1,
etc.) mas não necessários para o reconhecimento
desta condição.
8.2 Necessidades futuras
É necessária uma clara descrição
dos componentes essenciais do síndroma juntamente com os
dados que apoiam importância relativa de cada componente.
Critérios acordados internacionalmente relativos à
obesidade central, insulinorresistência e hiperinsulinemia
seriam de uma grande utilidade.
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Anexo 1
A Prova de Tolerância à Glicose Oral
A prova de tolerância à glicose oral (PTGO) é
utilizada, principalmente, para o diagnóstico quando os
níveis de glicemia são ambíguas, durante
gravidez ou em estudos epidemiológicos.
A PTGO deve ser realizada de manhã, após pelo menos
3 dias de regime alimentar não restritivo (superior 150
g de hidratos de carbono por dia) e habitual actividade física.
Evidências recentes sugerem que uma refeição
com um razoável conteúdo de hidratos de carbono
(30-50 g) deve ser consumida na noite anterior ao teste. Este,
deve ser precedido de jejum de 8 14 horas, durante o qual pode
beber-se água. Durante o teste não é permitido
fumar. Deve ser registada presença de factores que possam
influenciar interpretação dos resultados (ex. medicação,
inactividade, infecções, etc.).
Após colheita em jejum de uma amostra de sangue, o doente
deverá beber uma solução de 75 g de glicose
anidra ou 82.5 g de glicose mono-hidratada (ou hidrolisados parciais
de amido com um conteúdo equivalente de hidratos de carbono)
em 250 300 ml de água, durante um período de 5 minutos.
Para as crianças, quantidade de glicose deve ser 1.75 g
por Kg de peso corporal até um máximo de 75 g de
glicose. contagem do tempo é efectuada partir do momento
em que se começa beber esta solução. Devem
ser recolhidas amostras sanguíneas ao fim de 2 horas da
sua ingestão.
Salvo se concentração da glicose possa ser determinada
imediatamente, amostra sanguínea deve ser recolhida num
tubo contendo fluoreto de sódio (6 mg por ml de sangue
total) e centrifugado imediatamente para separação
do plasma; o plasma deve ser congelado até que concentração
da glicose possa ser determinada. Para interpretação
dos resultados, consulte o Quadro 1.
Anexo 2
Métodos para determinação de substâncias
no sangue e na urina
Determinação da glicose no sangue Os métodos
potenciométricos (métodos de auto-análise
de Somogyi-Nelson, de ferricianeto e neocuprina) são, ainda,
utilizados para determinação da glicemia. O método
da o-toluidina também se mantém em uso. Os métodos
enzimáticos estão amplamente difundidos, quer em
laboratórios quer nos próprios doentes. Estão,
actualmente, disponíveis dispositivos muito rápidos
(1-2 minutos) e precisos, que se baseiam em eléctrodos
imobilizados de glicose oxidase. Como referência, são
utilizados os métodos da hexoquinase e desidrogenase da
glicose.
As amostras de sangue total conservadas com fluoreto, revelam
uma rápida diminuição da glicose até
cerca de 10% à temperatura ambiente mas, posteriormente,
diminuição é pequena; centrifugação
previne essa diminuição inicial. Os valores da glicose
no sangue total são cerca de 15% mais baixos do que os
seus correspondentes valores plasmáticos em doentes com
um hematócrito normal e os valores arteriais são
cerca de 7% superiores aos correspondentes valores venosos.
A utilização de métodos de oxidase da glicose
com tiras de reagente, tornou muito popular determinação
da glicemia. No entanto, o custo destas tiras de reagente mantém-se
alto. Algumas técnicas ainda requerem punção,
"timing" preciso e armazenamento das tiras em contentores
hermeticamente fechados. Resultados quantitativos razoáveis
podem ser obtidos até com técnicas colorimétricas.
Medidores electroquímicos e reflectores podem originar
coeficientes de variação inferiores 5%. Os métodos
com tiras de reagente foram validados em condições
tropicais, mas são sensíveis condições
climatéricas extremas. O diagnóstico da diabetes
feito através dos resultados da glicose obtidos com tiras
de reagente pode ser muito suspeito mas este não pode ser
excluído com certeza, apenas pela utilização
deste método. confirmação do diagnóstico
requer utilização de métodos laboratoriais.
Os doentes podem facilmente recolher eles próprios, pequenas
amostras de sangue (em tubos capilares de vidro ou plástico
especialmente preparados ou em papel de filtro) e própria
monitorização pela utilização de tiras
de reagente com coloração directa comparativa ou
com medidores é largamente utilizada. Os doentes devem
ser treinados apropriadamente de forma que sejam evitados resultados
pouco precisos ou enganadores.
É, frequentemente, pedido ao doente tratado com insulina,
que construa o seu "perfil de glicemia" através
da medição da sua glicose sanguínea em alturas
específicas do dia (e noite). Um "perfil com 7 pontos"
é útil, com amostras colhidas antes do pequeno-almoço
e 90 minutos após este, antes e 90 minutos após
o almoço, antes e 90 minutos após o jantar e antes
de ir dormir. Ocasionalmente, os doentes podem acordar às
03:00 h para colher e medir uma amostra nocturna. O perfil completo
raramente precisa de ser obtido por colheitas realizadas em apenas
24 horas e pode ser compilado por amostras recolhidas em diferentes
tempos durante um período de vários dias.
Determinação da glicose na urina
Os doentes tratados com insulina que não têm acesso
aos meios necessários para auto-determinação
da glicemia, devem fazer testes em amostras de urina depois de
acordar, antes das refeições principais e antes
de deitar. Os doentes que não são dependentes de
insulina não precisam fazer uma monitorização
tão frequente da sua urina. No entanto, os testes na urina
têm um valor limitado devido à grande variação
na concentração da glicose na urina relativamente
determinados níveis de glicemia. correlação
entre glicose sanguínea e urinária pode ser um pouco
melhorada através da recolha de fracções
curto prazo (15-30 min) depois de urinar. Podem ser utilizadas
solução quantitativa de Benedict ou de auto-ebulição,
comprimidos de soda cáustica /sulfato de cobre ou mais
convenientemente, mas mais caras, as tiras-teste enzimáticas
semi-quantitativas.
Corpos cetónicos na urina e sangue
O aparecimento de cetonúria persistente associada hiperglicemia
ou altos níveis de glicosúria em doentes diabéticos,
sugere presença de um nível muito grave e inaceitável
de distúrbio metabólico e indica necessidade urgente
de medidas correctivas. O doente deve ser aconselhado medir os
corpos cetónicos (acetona e ácido aceto-acético)
quando os testes à glicose são repetidamente positivos
ou quando existe uma substancial perturbação da
saúde, particularmente infecções. O teste
de Rothera com nitroprussiato de sódio pode ser utilizado,
ou em alternativa, tiras de reagente sensíveis às
cetonas. Em situações de emergência tal como
cetoacidose diabética, pode ser detectada uma concentração
muito aumentada de cetonas plasmáticas, com uma tira-reagente
e grosseiramente quantificada pela diluição em série
de 1 para 2, do plasma em água.
Quadro 1
Valores de diagnóstico da diabetes mellitus e outras
categorias de hiperglicemia
* Os valores correspondentes para plasma capilar são:
para Diabetes Mellitus, em jejum = 7.0 (= 126), 2 h > 12.2
(= 220); para Anomalia da Tolerância à Glicose, em
jejum < 7.0 (< 126), 2 h > 8.9 (= 160) e < 12.2 (<
220); e para Anomalia da Glicemia do Jejum = 6.1 (= 110) e <
7.0 (< 126) e se determinado, 2 h < 8,9 (< 160). Para
fins epidemiológicos ou para pesquisa em populações,
os valores em jejum e às 2 h após sobrecarga oral
de 75 g de glicose, podem ser utilizados por si só. Para
fins clínicos, o diagnóstico da diabetes deve ser
sempre confirmado pela repetição do teste num outro
dia, não ser que o valor da hiperglicemia seja inequívoco
e exista uma descompensação metabólica aguda
ou sintomas óbvios. As concentrações de glucose
não devem ser determinadas no soro, salvo se os eritrócitos
forem imediatamente removidos, porque de outra forma glicólise
irá resultar numa imprevisível subestimação
das verdadeiras concentrações. Deve ser frisado,
que os conservantes da glucose não previnem totalmente
glicólise. Se é utilizado o sangue total, amostra
deve ser conservada entre os 0-4 ºC ou centrifugada imediatamente,
ou examinada de imediato.
Quadro 2
Classificação Etiológica das alterações
da Glicemia*
Tipo 1 (destruição das células ß
que conduz, geralmente, uma deficiência absoluta de insulina)
Autoimune Idiopática
Tipo 2 (pode variar entre o predomínio da insulinorresistência
com deficiência relativa de insulina e o predomínio
da deficiência de secreção com ou sem insulinorresistência)
Outros tipos específicos (ver tabela 3)
Defeitos genéticos da função da célula
b
Defeitos genéticos na acção da insulina
Doenças do pâncreas exócrino
Endocrinopatias
Induzida por fármacos ou químicos
Infecções
Formas pouco comuns de diabetes imunomediada
Outros síndromas genéticos, por vezes, associados
com diabetes
Diabetes gestacional**
* À medida que forem sendo descobertos subtipos adicionais
pensa-se que irão ser reclassificados dentro da sua categoria
específica.
** Incluí as anteriores categorias de diminuição
da tolerância à glicose na gravidez e diabetes gestacional.
Quadro 3
Outros Tipos Específicos da Diabetes
Defeitos genéticos da função da
célula ß
Cromossoma 20, HFN4d (MODY1)
Cromossoma 7, glucoquinase (MODY2)
Cromossoma 12, HFN 1a (MODY3)
Cromossoma 13, IPF-1 (MODY4)
Mutação no DNA mitocondrial 3243
Outros
Defeitos genéticos na acção da insulina
Resistência à Insulina Tipo A
Leprechaunismo
Síndroma de Rabson-Mendenhall
Diabetes lipoatrófica
Outros
Doenças do pâncreas exócrino
Pancreatopatia fibrocalculosa
Pancreatite
Traumatismo/ pancreatectomia
Eoplasia
Fibrose Cística
Hemocromatose
Outras
Endocrinopatias
Síndroma de Cushing
Acromegália
Feocromocitoma
Glucagonoma
Hipertiróidismo
Somatostatinoma
Outras
Induzida por fármacos ou químicos (ver
quadro 4)
Infecções
Rubéola congénita
Citomegalovírus
Outras
Formas pouco comuns de diabetes imunomediada
Síndroma auto-imune da insulina (anticorpos contra insulina)
Anticorpos anti-receptores da insulina "Stiff Man syndrome"
Outras
Outros síndromas genéticos (ver Quadro
5)
Quadro 4
Diabetes Induzida por Fármacos ou Químicos
Ácido nicotínico
Glucocorticóides
Hormona da tiróide
Agonistas alfa-adrenérgicos
Agonistas beta-adrenérgicos
Tiazidas
Fenitoína
Pentamidine
Vacor
Terapêutica com Interferão alfa
Outros
Quadro 5
Outros síndromas genéticos associados, por
vezes, com diabetes
Síndroma de Down
Ataxia de Friedreich
Coréia de Huntington
Síndroma de Kleinefelter
Síndroma de Lawrence-Moon-Biedel
Distrofia Miotónica
Porfíria
Síndroma de Prader-Willi
Síndroma de Turner
Síndroma de Wolffram
Outros
Figura 1
Valores da glicemia não estandardizados (casuais, aleatórios)
no diagnóstico da diabetes em mmol L-1 (mg dL-1). Retirados
do Relatório de 1985 do Grupo da OMS (3).
Figura 2
Alterações da glicemia: tipos etiológicos
e estádios clínicos
* Em situações raras os doentes nestas categorias
(ex. Toxicidade do Vacor, Gravidez com Tipo 1, etc.) podem precisar
de insulina para sobreviver.
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